Testemunho emocionante de uma operadora de hipermercado “Os clientes ofendem-nos”

Os portugueses estão a viver em plena pandemia de Covid-19 e correm para as compras como se o Mundo fosse acabar. A falta de respeito, educação e civismo tem deixado vários operadores de lojas em lágrimas.

Maria Silva de 30 anos trabalha num hipermercado e compara aquilo que vê diariamente com um filme de terror. “Tem sido muito difícil. A sensação que temos é que estamos num daqueles filmes de terror. Estive uns dias a fazer a abertura da loja, ou seja, a entrar às 6h30. Quando chegava tinha o meu sector totalmente vazio e as paletes, que num dia normal são abertas uma de cada vez, vão diretamente para dentro da loja para começar a encher tudo o que é prateleira. Começo a ver que o sol já nasceu e a ansiedade a crescer ao ritmo da fila lá fora, ainda antes da porta abrir. Temos uma pausa para tomar o pequeno almoço e enchermo-nos de força, mas ainda tenho tanto para fazer que mal mastigo e lá vou eu de novo. Ansiosa.

É o caos. Pessoas por todo o lado, algumas com máscaras e luvas e eu já só penso no risco que estou a correr. Tenho dois filhos. E se fico infectada, se infecto os meus filhos? Tenho medo, muito medo mas preciso de estar ali por eles. Preciso deste trabalho, do dinheiro e também porque somos muito poucos na loja. Se formos todos para casa ao mesmo tempo, a loja fecha, como é que as pessoas vão comer? É só isto que me dá força para aguentar até ao fim do dia. Tento abstrair-me e fazer o meu trabalho com as devidas precauções. Mas é difícil manter a serenidade.

Ninguém pensa em nós, nos funcionários. Novos e velhos não respeitam o espaço de segurança a que estão obrigados e quase cara com cara, desesperados, perguntam se há isto, se há aquilo. Por mais que me afaste eles vêm para cima de nós. Os clientes discutem entre eles, ao ponto de se agredirem, roubam os carrinhos uns dos outros, os cestos que encontram perdidos…Uma verdadeira loucura. Nestes dias não tenho estado só no meu sector, estou onde é preciso, e sinto-me muito cansada, com dores no corpo… Pareço uma barata tonta, para cá e para lá. Os clientes não nos respeitam e não têm paciência nenhuma. Gritam connosco e ofendem-nos.

Antes de tocar em qualquer coisa ou em alguém, lavei bem as mãos e passei álcool, mas será que é suficiente? Fui a correr ter com o meu marido e chorei, chorei tanto sem saber o porquê. Ele só me perguntava o que se tinha passado mas eu não sabia responder se foi o cliente mal educado, o cansaço do trabalho que é tanto ou o medo desta Pandemia. No dia seguinte, voltam as lágrimas. Não queria sair de casa, do conforto dos meus, mas mais uma vez pensei eu vou, tenho que ir, por mim e por eles e por todos, mas sempre na dúvida se estou a fazer o que é certo. Neste momento em que estamos a alimentar Portugal, só quando saímos do trabalho é que damos conta que não fizemos as nossas compras e não temos quase nada para dar de comer aos nossos em casa. Mas amanhã penso em nós. Amanhã é outro dia…”, disse.

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