Rita Marrafa de Carvalho esclarece porque optou não ver a entrevista de Tony Carreira: “Cobarde”

Rita Marrafa de Carvalho partilhou um longo texto no Facebook a explicar o motivo de não ter assistido à entrevista de Tony Carreira a Manuel Luís Goucha, na TVI. 

Texto na íntegra:
Não assisti à entrevista que Tony Carreira deu a Manuel Luís Goucha. Sei, no entanto, que poucos teriam a sensibilidade e empatia para a fazer, como o Manel Luis.
Preferi não ver. Porque se há coisa com que não nos queremos confrontar é com esta dor avassaladora que a morte de um filho provoca. Cobarde, não vi.
Porque o que ouviria, me transportaria para a imensa ferida que ainda existe na vida de quem conheço.
Porque está a decorrer o julgamento dos estudantes que morreram na praia do Meco, recordei-me de um texto que escrevi, em 2016, quando conheci Anabela. A mãe do Tiago.
“Anabela tem mãe. Mas já não tem filho. Foi hoje à praia, levou rosas brancas, e plantou-as na areia, em forma de coração. Ficou ali, sentada, o vento na cara e a humidade a entrar-lhe pela palma do pé. A mirar os espelhos de sol no mar, lá ao longe. A cheirar aquele sal que lhe levou o filho.
Anabela deu um beijo à mãe e foi para a praia lembrar o filho que o mar lhe levou. Hoje, Anabela, mais do que nunca, lembra que já foi mãe. Ainda é, caramba! Não foi! É! É mãe do Tiago. Levou-lhe flores e vai deixá-las ali, para serem levadas pela maré, que lhe devolveu o corpo do filho há ano e meio. Todos os dias, Anabela lembra que é mãe mas que o filho não está ali, não mora ali, não lhe sente o calor das mãos no rosto, quando a queria encher de beijos para lhe pedir alguma coisa.
Nem lhe ouve a voz a pedir almoço ou as gargalhadas enquanto atira bolas ao cão que nunca lhe deixava a cama nas noites mais frias ou o quarto, nas noites de estudo. Todos os dias. E mesmo que não quisesse, jamais conseguiria esquecer que foi mãe. Que é mãe. Do Tiago.
Anabela tem um corpo pequeno e franzino mas a voracidade de quem engole o mundo, se for preciso. Com ela, respira-se o pó de uma fortaleza secular. Mãe guerreira. Mãe saudosa. Mãe coragem. Anabela não deixa de pensar no filho que teve em nenhum minuto do dia. Porque perdeu um pedaço dela. Naquele dia, Tiago levou com ele uma parte da Anabela. O seu rasto, o seu sangue, a sua alma. Tiago morreu. E que fazer com aquela tonelada de amor que lhe ficou nos braços, nos ombros, no peito? Anabela não sabe.
Vai sabendo, aos poucos, dosear a avalanche de ternura que ficou por dar, por entregar ao único filho que a vida lhe deu.
Anabela, no dia da Mãe, sente que é também o seu dia. E é. Nunca deixará de ser a mãe do Tiago. Nem ele o filho dela. E naquele mar, onde perdeu o ar, onde a água o venceu pelo cansaço, onde as ondas lhe tiraram o sopro, Anabela sente-se mais perto do filho. Que foi, que não volta, mas que está sempre dentro dela. Daquele corpo pequeno, franzino. Porque dentro dela há a força das Mães. E isso, mar algum lhe tirará.”

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