Joana Emídio Marques acusa ex-editor da Porto Editora de assédio sexual

Joana Emídio Marques recorreu à sua página de Facebook para revelar foi vítima de assédio sexual. A jornalista avançou com o nome do homem que o fez. 

Trata-se de  Manuel Alberto Valente, ex-editor da Porto Editora e atual cronista do jornal Expresso. Joana Emídio Marques contou como tudo aconteceu.

Texto na íntegra publicado por Joana Emídio Marques no Facebok: 
MAIS UM DIA NORMAL
De vez em quando uma vaga de actrizes e outras famosas estreiam-se ou reestreian-se em capas de revista supostamente “revelando” ( a questão da revelação é sempre essencial, porque parece que se vai ver uma coisa nova), ter sido vítima ( a vítima também é fundamental às narrativas jornalisticas como o vilão). Hoje foi a Catarina Furtado, ontem outra actriz, anteontem uma cantora. Ahhh os bastidores do mercado da fama, da ambição e do poder: sempre com tantas novidades, tantas formas de se reinventar.
No entanto a coisa não é nova: violar as mulheres é coisa que os homens fazem desde o tempo em que eram guerreiros a soldo de um qualquer chefe tribal (será que deixaram de ser?).
Se nasces mulher serás vítima de assédio sexual ou violação num qualquer momento da tua vida. As mulheres troianas foram feitas escravas sexuais dos gregos quando Troia perdeu a guerra. Leia-se a história de Cassandra. É melhor que a da Catarina Furtado e ela diz o nome do seu algoz.
Há umas semanas atrás vi o sol e ousei vestir uns calções (com umas grossas collants). Entre a minha casa e o supermercado, ouvi apitos de carros, janelas que se abriam e gajos a soltarem urros. Por fim veio um garoto (seria um lobo se isto fosse um conto de fadas), barrar-me o caminho para saber “se me podia conhecer”. Levou um grito e afastou-se ofendido a chamar-me “malcriada”.
Se nasces mulher e gritas e mostras que também tens garras és chamada de “malcriada”, “mentirosa”, “histérica”.
Gostava que os jornais mostrassem o rosto das miúdas da província que eu fui, das miúdas dos subúrbios. De todas aquelas que são assediadas só pelo facto de nascerem mulheres e não apenas as “famosas” que foram vagamente assediadas. Desculpem, mas este show off à volta da Catarina Furtado et al, ofende-me enquando miúda da província, enquanto miúda dos subúrbios, dos bairros chiques, de todo o lado, do mundo inteiro. Das que sofrem assédio dos vizinhos, dos colegas de trabalho, dos chefes, dos homens com os quais se cruzam na rua, das que são apalpadas nos autocarros, nas discotecas, nos bares.
Gostava que os jornais falassem ( também) dos casos de assédio que se passam dentro das redações, nos meios onde, supostamente, reina a liberdade e o humanismo como o meio literário e, se querem imitar as americanas, digam os nomes desses homens, porque a coragem é cousa que não tem limites.
A Filomela, violada e raptada pelo cunhado, foi-lhe cortada a língua para que não falasse. Mas ela, em segredo, bordou a sua história num pano, fê-lo chegar à irmã, e esta não foi modesta a vingá-la. Mas, fora dos mitos,onde estão as irmãs da mulheres anónimas?
Se és mulher terás poucas irmãs e muitas inimigas. Se és famosa terás irmãs que vêm fazer-te eco para melhor debicarem a tua fama.
No meio literário, por exemplo, toda a gente sabe que Manoel de Oliveira assediava e perseguia as suas jovens colaboradoras. Que Saramago, David Mourão Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues assediavam mulheres e não sabemos sobre quantas usaram o seu poder para obter favores sexuais. Uma questão geracional? Não. Uma questão de percepção da mulher como objecto e não como gente.
Deixem-me contar uma história, houve outras, mas esta é particularmente ilustrativa, porque muitas mulheres partilharam comigo ter sofrido situações idênticas com a mesma pessoa, mas não só estão caladas como me vão repudiar por estar a contar esta história. Lamento. Lamento-as.
No ano de 2012 começou a correr a notícia de que a Porto editora ia comprar a mais importante chancela de poesia a Assírio e Alvim, cujo catálogo tinha nomes como Herberto Helder. Para quem está fora do meio literário isto pode não significar nada. Para quem trabalha no meio era uma cacha (um furo jornalístico) e eu queria-o para mim. Era “amiga”, no facebook, do editor e homem forte da Porto Editora, que já então me enviava mensagens pseudo-sexutoras (não é erro, inventei esta palavra). Aceitei jantar com ele para falarmos da compra da Assírio.
Não por acaso ele marcou o jantar num fim de semana em que a sua mulher estava num festival literário no México. Mas esta ligação eu só fiz muito depois. Fomos a um restaurante (caro) ali ao fundo da rua do Alecrim, um que serve sushi. Ele, cavalheiro-me a ajudar-me a despir o casaco, a puxar a cadeira para eu me sentar. Estava eu a ficar bem impressionada, quando ele tira do bolso uma caixinha de comprimidos que espalhou na palma da mão e aproximou do meu rosto e lançou: estás a ver? Não tenho aqui nenhum comprido azul.
Eu, que acabara de conhecer o homem e não queria parecer burra, forcei o meu cérebro a tentar entender a “piada” mas não consegui. “Oh, soltou ele ” não te faças de sonsa”. Assim, logo a tratar-me por tu e a insultar-me de forma velada. Nesse momento eu entendi ( se nasces mulher aprendes cedo a descodificar alusões sexuais): o homem estava a mostrar-me, a dizer-me que não tomava Viagra. E aquilo que era para mim um jantar de trabalho tornou-se logo ali uma humilhação. Não me lembro do que falamos, para além de coisas como as dívidas e a falência iminente da Assírio, entre piadinhas aqui e ali ainda ouvi “pensava que fosses uma mulher totalmente frivola, mas és esperta”.
Mesmo assim, nada de concreto consegui saber sobre o negócio da Porto Editora e a única coisa que eu realmente trouxe deste encontro foi um “diz que disse”. Nada consistente para a minha notícia. Perks of the job. Por essa altura já tinham sido medidas as forças. Ele já tinha percebido que não me ia levar para a cama e eu já tinha percebido que sem isso não havia estória.
Só história. Como fazia sempre, tinha deixado o meu carro estacionado na Rodrigues Sampaio, junto à porta do DN. Ele ofereceu-se para me dar boleia até lá. Aceitei. Erro meu. Quando parou o carro e ia dar-lhe os tradicionais 2 beijos de despedida, o Manuel Alberto Valente ainda achou por bem começar a tentar beijar-me na boca, com uma descontração que mostrava que ele deve ter feito isto centenas de vezes. Eu afastei-me e sai do carro. Em silêncio chamei-o de velho porco, em silêncio humilhado chorei até Setubal. Contei isto a vários amigos, mas não mais. Queixei-me ao (na altura) assessor de imprensa da Porto Editora, Rui Couceiro, que reconheceu “haver esse problema”, como quem aceita que pode chover num dia de sol.
Se fores mulher, ser tratada sem vergonha nem respeito, é apenas mais um dia normal na tua vida. O Manuel Alberto Valente, acabou no final do ano passado, por ser afastado da Porto Editora. Hoje em dia é cronista do Expresso. Colega do Henrique Raposo que veio a público pedir às mulheres que digam nomes. Aqui está um nome, caro Henrique. E tenho mais. Mas talvez não dê jeito ouvir.

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