Carlos Vaz Marques sai da TSF com acusações de “bullying profissional”

Carlos Vaz Marques acaba de anunciar saída da TSF com a garantia que vai processar o Global Media Group, detentor da marca da rádio. 

Texto publicado pelo jornalista nas redes sociais: 

A TSF E EU:
UMA LONGA RELAÇÃO FELIZ
COM UM DESFECHO LAMENTÁVEL

1. Gratidão

Foram quase 32 anos. Uma história que termina mal, mas que de modo nenhum me fará esquecer o que teve de bom. Os desenvolvimentos recentes são um epifenómeno face ao muito que devo à TSF.
Já era jornalista quando Emídio Rangel me convidou para fazer pequenos apontamentos sobre livros no final dos noticiários e um ano depois, em Outubro de 1990, para integrar a redacção da rádio que mudou a rádio. Eu era então um jovem jornalista aprendiz, que tinha passado pelo JL e pelo semanário O Jornal, depois de dois anos a dar aulas, mas foi na TSF que encontrei o caldo de cultura único onde viria a formar-me e que guardo como património inigualável de aprendizagem pessoal e profissional.

Nunca o casamento entre veterania e sangue na guelra terá sido tão produtivo no meio radiofónico em Portugal.
Seria fácil fazer aqui uma longa lista de nomes, como prova da marca indelével que a TSF original deixou no panorama comunicacional português, mas referirei apenas a título de exemplo meia dúzia daqueles que foram para mim os mais extraordinários companheiros e mestres nesta aventura. À experiência de profissionais que eram já referências, como David Borges, Fernando Alves ou Francisco Sena Santos, juntou-se o entusiasmo e a criatividade de gente nova e promissora como João Almeida, Luís Proença e João Paulo Baltazar, entre os jornalistas, ou Jorge Pena e Alexandrina Guerreiro, na técnica e na sonoplastia.
Saiu-me a sorte grande na vida ao ter-me cruzado, tornado amigo e trabalhado com pessoas tão talentosas.
Devo isso à TSF, tal como lhe sou devedor das imensas oportunidades profissionais que me proporcionou. Com a TSF conheci o mundo, literalmente: atravessei a China de Xangai ao Xinjiang, fui para Israel à espera do anunciado bombardeamento de Saddam com armas químicas, estive escondido em Timor sob a ameaça das milícias indonésias, visitei Xanana Gusmão na prisão em Jacarta, percorri milhares de quilómetros nos Estados Unidos da América, andei de limusine em Estocolmo com José Saramago na véspera da cerimónia do Nobel, viajei com Mário Soares na Argélia sob o perigo islamista, acompanhei uma expedição científica durante mais de um mês nos confins da Guiné, fui enviado especial a lugares que de outro modo nunca teria sequer sonhado visitar.

Devo também à TSF a possibilidade de criar um programa de entrevistas que me permitiu conhecer figuras extraordinárias; fui ao Rio de Janeiro entrevistar Chico Buarque, estive em casa de Mario Vargas Llosa em Londres, entrevistei o Dalai Lama em Bruxelas. Para além das centenas de outras personalidades das artes, da literatura, da política e do pensamento com quem, sem o pretexto do programa ‘Pessoal e… Transmissível’ , nunca teria podido cruzar-me.

Foi também na TSF que criei outros dois programas que ganharam um lugar próprio: ‘O Livro do Dia’ e o ‘Governo Sombra’ (cuja versão radiofónica deu origem ao programa televisivo que continua vivo e activo).
A minha experiência profissional de mais de três décadas é um capital pessoal inesgotável e foi seguramente, ao longo do tempo, um capital valioso que contribuiu para a afirmação da rádio a que me entreguei com uma dedicação reconhecida e por diversas vezes premiada.

2. Indignação

Nunca pensei, ao fim de mais três décadas de dedicação, vir a ser colocado pelo Global Media Group, actual detentor da marca TSF, na situação atentatória da minha dignidade profissional a que estive sujeito nos últimos meses. Uma situação que não posso continuar a aceitar; por respeito pelo legado histórico da TSF, em memória do esforço daqueles com quem ajudei a construir uma marca de referência e, acima de tudo, pela minha dignidade pessoal e profissional.

Vi-me durante meses sob uma situação que só posso descrever como uma forma de bullying profissional. Foi a própria TSF a acabar unilateralmente com o programa ‘O Livro do Dia’ e o novo director achou que depois de mais de uma década sem qualquer aumento salarial estava na altura de me fazer aceitar um corte no vencimento para menos de metade. Uma proposta inaceitável a que contrapus o regresso de ‘O Livro do Dia’ ou uma rescisão amigável, nos termos em que no ano passado outros jornalistas deixaram a empresa. A actual direcção da TSF recusou ambas as sugestões: para ‘O Livro do Dia’ não há espaço na antena da TSF, respondeu-me o director; quanto à rescisão negociada também já não está em cima da mesa. Teria mesmo de ficar na empresa com o salário amputado. Ou isso ou voltar aos turnos de noticiários.

Pacientemente, durante meio ano, tentei sensibilizar a direcção de recursos humanos da empresa para o atropelo de que estava a ser vítima. Tudo em vão.
Fui colocado numa equipa de turno e ao longo dos últimos meses a minha actividade profissional limitou-se (nos dias em que houve alguma coisa para fazer, pois na maior parte deles em nada pude contribuir para a antena da TSF, embora sujeito a cumprir horário), a uns telefonemas de circunstância e à recolha de curtas declarações telefónicas gravadas a respeito de temas correntes, frequentemente sem qualquer relevância noticiosa.

Perante isto e mais um punhado de circunstâncias que constarão do processo que seguirá os trâmites legais adequados, decidi ser tempo de não aceitar mais ofensas à minha honra e dignidade profissional. A minha relação com o Global Media Group, actual detentor da marca TSF, lamentavelmente terá de ser resolvida em tribunal.
“Mas isto é um canto e não um lamento /Já disse o que sinto e agora façamos o ponto / E mudemos de assunto, sim?”

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